Na década de 1880, o dachshund ainda era uma novidade nos Estados Unidos. Em poucos anos, porém, cães importados da Alemanha e da Grã-Bretanha começaram a aparecer em registros, exposições e canis americanos. Em 1895, admiradores da raça já tinham organização suficiente para formar o Dachshund Club of America.
Essa passagem de recém-chegado a raça organizada revela como os clubes, os livros genealógicos e as exposições ajudaram a construir a presença do dachshund fora da Europa. Também mostra que sua popularidade americana começou muito antes do apelido “cachorro-salsicha” dominar a cultura popular.
Uma raça que atravessou o Atlântico
O dachshund foi desenvolvido na Europa, sobretudo por caçadores e criadores alemães. Seu nome significa “cão de texugo” em alemão e resume a função que orientou sua formação: trabalhar perto do solo e entrar em tocas. No século XIX, a raça passou a ser documentada com maior precisão, ao mesmo tempo que as exposições de cães ganhavam espaço.
O Dachshund Club of America registra que exemplares vindos tanto da Alemanha quanto da Grã-Bretanha começaram a chegar aos Estados Unidos na década de 1880. Os importados alemães tiveram grande influência nas exposições americanas até a Primeira Guerra Mundial.
Não era uma transferência simples. Muitos dos melhores cães alemães pertenciam à nobreza, e comprá-los podia ser difícil. Criadores americanos precisaram formar plantéis com os exemplares que conseguiam importar e com os cães já nascidos no país.
1885: o dachshund entra nos registros do AKC
Segundo o material histórico do clube americano, o American Kennel Club reconheceu a raça em 1885. Onze dachshunds foram incluídos no primeiro volume do livro de registros da entidade.
O número parece pequeno, mas o registro era decisivo. Um stud book — ou livro genealógico — permite acompanhar origem, parentesco e criação. Naquele período, essa documentação ajudava a diferenciar uma população organizada de cães de um conjunto de animais identificados apenas por aparência ou uso.
Os Estados Unidos seguiam um movimento que já ocorria na Europa. O primeiro padrão detalhado da raça havia sido elaborado em 1879. Na Grã-Bretanha, o Dachshund Club foi fundado em 1881; na Alemanha, criadores formaram seu clube em 1888 e criaram regras próprias de registro.
Quem ajudou a firmar a raça na América
A história do Dachshund Club of America menciona criadores da Costa Leste e do Meio-Oeste que buscaram cães de boa procedência. Entre eles estavam Harry Peters Sr., o artista Gustav Muss-Arnolt e o médico e químico conhecido nos registros do clube como Dr. Montebacher.
O relato preserva um detalhe curioso: Montebacher teria usado o espaço sob as prateleiras de sua farmácia para acomodar dachshunds. A cena ajuda a imaginar um tempo em que a criação organizada ainda dependia de iniciativas pessoais, antes de existir a infraestrutura atual de clubes especializados.
Outro nome importante foi George Semler, de Nova York. Seus canis West End, ativos no início do século XX, reuniram linhagens alemãs e cães criados nos Estados Unidos. Já o Dr. Carl Folkens foi responsável pela importação do primeiro dachshund de pelo duro para o país, segundo o clube.
1895: nasce o Dachshund Club of America
Em 1895, a articulação dos primeiros entusiastas resultou na fundação do Dachshund Club of America, com Harry Peters Sr. como primeiro presidente. A entidade é apontada pelo próprio clube como o oitavo membro mais antigo do American Kennel Club.
Um clube de raça exercia várias funções. Ele aproximava criadores, ajudava a interpretar o padrão, estimulava registros, organizava atividades e preservava informações. Com isso, o dachshund deixou de depender apenas do trabalho isolado de importadores e passou a ter uma comunidade institucional no país.
A fundação também ocorreu numa fase em que a raça crescia na Alemanha como cão de trabalho e companhia. Exposições aumentavam sua visibilidade, embora já existisse debate sobre diferenças entre cães selecionados para caça e exemplares valorizados nas pistas.
Do trabalho às exposições
A entrada em livros genealógicos e exposições não apagou a origem funcional do dachshund. O corpo baixo, o peito desenvolvido e a determinação tinham relação com o trabalho subterrâneo. Entretanto, as pistas passaram a influenciar quais características visuais recebiam destaque.
O histórico do clube americano observa que, no fim do século XIX, dachshunds com corpo mais comprido e pernas mais curtas começaram a obter sucesso em grandes exposições alemãs. Criadores ligados ao trabalho e às pistas chegaram a manter organizações separadas por algum tempo.
Essa tensão faz parte da história de muitas raças: preservar aptidões, saúde e temperamento enquanto um padrão visual ganha importância pública. Ela ajuda a entender por que clubes atuais mantêm não apenas exposições, mas também códigos de ética, atividades de desempenho e iniciativas de pesquisa em saúde.
Uma expansão interrompida pela guerra
O crescimento inicial foi expressivo. Um registro histórico do clube informa que, em 1914, os dachshunds estavam entre as dez raças com mais registros nos Estados Unidos. A Primeira Guerra Mundial mudou esse cenário.
Por sua ligação evidente com a Alemanha, a raça foi atingida pelo sentimento antigermânico. Alguns responsáveis passaram a usar a expressão “badger dog”, ou cão de texugo, para evitar o nome alemão. Canis reduziram ou encerraram a criação, e o número de registros despencou.
O nome Dachshund voltou a ser adotado oficialmente em 1923. Naquele ano, apenas 23 cães foram registrados no AKC, segundo o clube americano. Ao final da década de 1930, os registros já superavam três mil por ano, sinal de uma recuperação notável.
O legado dos primeiros registros
Os onze cães registrados em 1885 e a criação do clube em 1895 parecem acontecimentos administrativos, mas ajudaram a fixar a história da raça nos Estados Unidos. Sem livros, atas e arquivos, seria muito mais difícil reconstruir quem importou cães, como as variedades se espalharam e de que maneira a população se recuperou após a guerra.
Essa memória também permite separar fatos documentados de lendas. A trajetória americana do dachshund não começou com filmes, anúncios ou redes sociais. Começou com pequenos grupos de criadores, registros genealógicos e uma rede que se organizou ainda no século XIX.
Para conhecer a etapa anterior dessa história, leia também como o dachshund passou de cão de caça alemão a companheiro conhecido no mundo todo.
Conclusão
O dachshund chegou aos Estados Unidos na década de 1880, entrou nos registros do American Kennel Club em 1885 e ganhou uma entidade nacional dez anos depois. Em pouco tempo, uma raça europeia com raízes no trabalho subterrâneo passou a ter criadores, documentação e vida institucional do outro lado do Atlântico.
A fundação do Dachshund Club of America em 1895 não foi apenas um marco para exposições. Ela criou uma estrutura duradoura para preservar registros, reunir pessoas e acompanhar as transformações da raça ao longo de períodos de popularidade, crise e recuperação.
