Antes de 1972, os Jogos Olímpicos já tinham emblemas, cartazes e personagens ocasionais. Faltava, porém, um mascote oficial que reunisse identidade local, espírito esportivo e simpatia em uma figura reconhecível. Foi um dachshund colorido chamado Waldi que ocupou esse lugar em Munique.

A escolha não foi um acaso engraçadinho. O cão comprido e de pernas curtas tinha ligação com a Alemanha e era popular na Baviera. Também carregava atributos que os organizadores queriam associar aos atletas: resistência, determinação e agilidade. Ao entrar no sistema visual dos Jogos de 1972, o dachshund deixou de ser apenas um cachorro familiar para se tornar uma peça pioneira da cultura olímpica.

Quem foi Waldi?

Waldi foi o mascote oficial dos Jogos Olímpicos de Verão de Munique 1972. O Centro de Estudos Olímpicos o apresenta como o primeiro mascote oficial da história dos Jogos de Verão. A precisão é importante porque Grenoble 1968 já havia usado Schuss, um personagem sobre esquis, mas de maneira não oficial. Waldi marcou o momento em que a figura do mascote passou a fazer parte formal da identidade de uma edição olímpica.

Visualmente, ele era inconfundível: cabeça e cauda em azul-claro e corpo comprido dividido em faixas de cores. Não tentava parecer um dachshund natural. Era uma criatura gráfica, pensada para funcionar em cartazes, brinquedos, chaveiros, bolsas e muitos outros suportes.

Por que um dachshund representou Munique?

O padrão oficial da Federação Cinológica Internacional registra a Alemanha como país de origem do dachshund, também chamado de Dackel ou Teckel. A raça foi desenvolvida a partir de cães de pernas curtas aptos ao trabalho de caça abaixo da terra e se tornou conhecida por versatilidade, persistência e mobilidade. Esse passado ajuda a entender por que o corpo baixo não foi tratado como fragilidade no projeto de Waldi: ele sugeria um cão pequeno, mas ativo e obstinado.

O Museu Olímpico observa ainda que o dachshund era muito popular na Baviera. Para um evento realizado em Munique, a figura era local sem depender de uma fantasia folclórica. Waldi podia ser reconhecido como alemão e bávaro, ao mesmo tempo que continuava legível para visitantes de outros países.

As qualidades atribuídas ao cão

As descrições olímpicas variam um pouco na tradução, mas convergem em três ideias: resistência, determinação ou tenacidade e agilidade. Não se tratava de afirmar que todo dachshund tem o mesmo temperamento. Eram qualidades simbólicas escolhidas para aproximar o mascote do esforço esportivo.

Como Waldi nasceu em uma festa de Natal

Segundo a ficha do Centro de Estudos Olímpicos, o ponto de partida ocorreu em 15 de dezembro de 1969, durante uma festa de Natal do comitê organizador de Munique 1972. Os participantes receberam lápis de cor, folhas e massa de modelar para criar propostas de mascote. É uma origem curiosamente informal para uma figura que depois seria controlada por regras de desenho, licenciamento e reprodução.

Waldi também teve um correspondente de carne e osso: uma dachshund chamada Cherie von Birkenhof. O registro olímpico informa que Willi Daume, presidente do comitê organizador, deu a cadela a Félix Lévitan, presidente da Associação Internacional da Imprensa Esportiva, em 1970. A história de Cherie reforça que o personagem não nasceu apenas de uma silhueta genérica; havia um animal real circulando naquele ambiente institucional.

Quem desenhou Waldi: Elena Winschermann ou Otl Aicher?

Essa dúvida aparece com frequência porque a identidade de Munique 1972 foi um trabalho coletivo comandado por um diretor muito conhecido. O designer Otl Aicher dirigia o departamento de criação visual dos Jogos e estabeleceu o sistema gráfico amplo: cores, pictogramas, sinalização e regras de aplicação. Já a ficha atual do Centro de Estudos Olímpicos credita a criação de Waldi a Elena Winschermann.

O Escritório Alemão de Patentes e Marcas ajuda a conciliar as duas informações: sua página histórica descreve Winschermann como integrante da equipe de Aicher e autora do dachshund colorido. O acervo do Museu Olímpico também lista Elena Winschermann entre os criadores de um exemplar de pelúcia de Waldi. Assim, a formulação mais cuidadosa é esta: Waldi foi desenhado por Elena Winschermann dentro do sistema visual dirigido por Otl Aicher.

A distinção valoriza tanto a autoria específica da designer quanto o caráter coordenado do projeto. Em vez de um desenho isolado, Waldi precisava conversar com toda a linguagem de Munique 1972.

As cores faziam parte de um sistema

Waldi não recebeu faixas coloridas apenas para parecer alegre. O Museu Olímpico explica que Aicher organizou uma paleta de seis cores para a identidade dos Jogos e que ela foi aplicada a lembranças como o mascote. A ficha do Centro de Estudos descreve diferentes combinações no corpo, com pelo menos três cores da paleta, enquanto cabeça e cauda permaneciam azul-claras.

Isso permitia variações sem perder o reconhecimento. A silhueta comprida, o azul e as faixas funcionavam como uma gramática visual: produtos diferentes podiam mudar a combinação, mas ainda pareciam membros da mesma família.

Do desenho à pelúcia

Transformar um personagem achatado em objeto tridimensional exigia adaptação. Um exemplar preservado pelo Museu Olímpico mede 66 centímetros de comprimento e pesa 494 gramas. O acervo o classifica como lembrança em tecido e registra a participação do comitê organizador, da fabricante D. Ahr e de Elena Winschermann. Esses dados aparentemente pequenos mostram como design, indústria e licenciamento estavam conectados.

Waldi também foi um experimento comercial

O relatório oficial do comitê organizador informa que a exploração comercial começou em meados de 1970. Até 1º de abril de 1972, havia cerca de 50 licenciados. Os fabricantes pagavam uma taxa mínima antecipada, e o comitê buscava ampliar o volume de vendas para aumentar a receita adicional.

Os números registrados são expressivos: 245 mil marcos alemães em taxas mínimas, mais 213 mil em taxas adicionais, totalizando 458 mil marcos. O mesmo relatório afirma que dois milhões de itens de Waldi foram vendidos em cerca de 20 países. O Museu Olímpico cita cabides, chaveiros, bolsas e brinquedos entre as formas assumidas pelo personagem.

Hoje parece natural encontrar uma mascote estampada em todo tipo de produto. Em 1972, essa escala ajudava a testar um modelo que se tornaria comum: a mascote como ponte afetiva com o público e também como ativo de licenciamento.

A maratona tinha mesmo o formato de Waldi?

A história é verdadeira, mas merece uma nota de fonte. A ficha do Centro de Estudos Olímpicos atribui a informação ao livro The Olympic Marathon, publicado em 2000. De acordo com esse registro, o percurso da maratona de 1972 correspondia à forma do mascote: a cabeça ficava voltada para oeste, a largada ocorria na região do pescoço e os atletas seguiam no sentido anti-horário.

Em outras palavras, não é preciso transformar a curiosidade em lenda sem origem. A própria documentação olímpica a apresenta com atribuição clara a uma obra posterior. Esse cuidado deixa a história ainda melhor: o desenho do dachshund não ficou restrito ao papel e aos souvenirs; teria sido traduzido para a geografia de uma prova.

O legado de um cachorro comprido

Depois de Waldi, mascotes se tornaram presença recorrente nos Jogos. Animais, figuras humanas e criaturas imaginárias passaram a representar cidades-sede, dialogar com crianças, aparecer em cerimônias e ocupar prateleiras de colecionadores. A fórmula mudou muitas vezes, mas o princípio já estava ali em Munique: escolher uma figura local, atribuir a ela valores esportivos e integrá-la a um sistema visual completo.

Também é importante não deixar que o tom alegre do design resuma toda a edição. Os Jogos de Munique foram interrompidos pelo ataque terrorista de 5 de setembro, no qual integrantes da equipe israelense foram feitos reféns e mortos. O próprio material histórico do Comitê Olímpico Internacional trata o episódio como parte incontornável daqueles Jogos. Waldi pertence à história do design e da comunicação de 1972; sua simpatia não apaga a tragédia vivida no evento.

Por que Waldi ainda encanta

Waldi continua interessante porque junta várias histórias em um só corpo comprido. Ele fala da origem alemã do dachshund, da cultura bávara, da modernização do design esportivo e do começo de uma indústria global de mascotes. Ao mesmo tempo, nasceu de uma brincadeira com lápis e massa de modelar em uma festa de Natal.

Essa mistura de rigor e afeto talvez seja o seu maior legado. Elena Winschermann transformou um cão familiar em uma imagem simples o bastante para circular pelo mundo; a equipe de Otl Aicher deu a essa imagem regras e contexto; e o público reconheceu nela um pequeno embaixador de quatro patas. Mais de meio século depois, Waldi ainda lembra que o dachshund pode ocupar muito mais espaço na cultura do que suas pernas curtas fariam imaginar.

Fontes consultadas

Fontes consultadas em 4 de agosto de 2026.